segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Ninguém Abraça um Pedaço - Comentário de Antonio Carlos Brunet

Um tema banal, explorado pelas artes, em geral, à exaustão. Fala de amor, de relacionamentos desgastados. Lança mão da poesia, de frases feitas, absorvidas pelo inconsciente coletivo dos apaixonados de plantão (estava já com medo de ouvir que “amar é jamais ter de pedir perdão”), trilha sonora pensada para desancar qualquer coração empedrado, porventura presente. Enfim, uma receita com todos os ingredientes para não dar certo e que, ao ser misturada na batedeira e levada ao forno, por aproximadamente 50min, para surpresa geral, resulta num bolo cheiroso, perfumado (com perfume de mulher), gostoso, e, sobretudo, que nos dá satisfação e prazer, daqueles que nos faz querer ficar quietinho no canto, digerindo, crocodilando letárgico, com a alma lavada e bem alimentada, por um longo período. Porém, que milagre é esse? É o milagre, também composto de vários ingredientes: simplicidade, criatividade, generosidade, talento, técnica y otras cositas más.
Contudo, obviamente, nem tudo é um mar de rosas. E, como sou , como sempre digo, pago para ser chato, vamos trabalhar!
Ninguém Abraça um Pedaço é assim, simples, como definido no programa: “uma ode ao amor e suas atribulações”. Trata-se de um roteiro poético-musical muito bem organizado (em sua aparente desorganização), que nos coloca frente a frente com um casal em crise. Cores quentes, movimentações frenéticas, trilha sonora pungente, lirismo exacerbado, erotismo à flor da pele, romantismo ingênuo, palavras cortantes, enfim, tudo aquilo que faz do amor o “ridículo da vida” (como diria o poeta) está lá, para o nosso desgosto e glória.
A direção, de Marsial Azevedo, conduz esta viagem com ousadia, inquietação e, sobretudo, muita suavidade e delicadeza, tendo sempre, sob qualquer circunstância, um olhar terno e carinhoso para com os seus dois personagens (ou duas facetas dele próprio, como diretor?): consciente e madura, ela; e, imaturo e egoísta, ele. Sente-se a direção pulsando e até, pode-se dizer, torcendo, ora por um, ora por outro, indeciso quanto à permanência em algum prato da balança, manipulando os conflitos às últimas conseqüências, imagino eu, salivando pelos cantos da boca. A direção parece se divertir, sacanamente, com as reviravoltas do roteiro. E, ao final do espetáculo, apesar de tudo, fica no ar um clima de esperança, como que a contradizer o poeta (outro), afirmando, por sua vez que, “o amor é eterno, mesmo que as relações não durem”.
Sensações e devaneios à parte, ao concreto, pois.
Trilha sonora, iluminação e figurinos maravilhosos. Funcionais, elegantes, e de muito bom-gosto. O grupo está de parabéns pela sintonia, assim como Luciano Heira pela criação dos já falados figurinos.
O cenário, também de Luciano Heira, dentro desta linha funcional\essencial, peca pelo excesso (olha a contradição), e que excesso: um pano branco, imenso pendurado ao fundo do palco, ao que me parece, com função indefinida, a não ser como mero objeto de decoração. Parecia, para mim, um grande mosquiteiro num dossel, mas que só ganharia status se manipulado pelos atores, para, viagem minha, em algum momento cobrirem todo o espaço com ele, dando a idéia de que a cena se passa sobre uma cama (o que também não teria muito sentido). No frigir dos ovos, trata-se de algo muito forte e colocado em local de destaque, para não ser nada. A melhor solução seria, creio, colocar tudo abaixo mesmo, ou dar-lhe realmente algum sentido. Em minha ubiqüidade e pretensão, me arrisco a sugerir: por que não utilizar esse pano como tela, onde Cláudia dê rápidas pinceladas (colorindo-o através da iluminação), conforme as mudanças de seu estado de espírito? Matar-se-ia assim, dois coelhos numa só cajadada: teríamos uma função para o pano e a artista plástica seria reforçada pela ação, e não somente pelo texto, como acontece na cena da entrevista.
Cláudia Miranda e Ulisses Alexandre são ótimos, e apropriaram-se do espetáculo com maestria, dando-nos a impressão de prescindirem da presença do diretor, além de exibirem uma preparação corporal invejável. E, os pecados, se é que se pode colocar assim, se existem, são da direção. Já explico: parto do princípio que o espetáculo me apresenta uma estética de e para jovens, abordando o tema proposto sobre o fim de caso de um jovem casal. Vai da valsa que, esta estética está – no espetáculo em questão, que fique bem claro -, intrinsecamente comprometida com a leveza das cenas. Só ela (a leveza) é que dá o tônus necessário, o clima desejado e a energia requerida e liberada. Daí que, Ulisses Alexandre consegue transitar através destes e nestes elementos, com naturalidade e maestria, em perfeita sintonia com a direção. Já Cláudia Miranda, também excelente atriz, ainda está presa à uma construção naturalista (embora as movimentações estilizadas). Isto faz com que o espetáculo pareça abordar o rompimento da relação de um casal com 30 anos de união, indo contra o até então estabelecido. A atriz tem de cuidar para não cair num drama de meia-idade (parafraseando mais um mito – adoro -: há que se sofrer, porém sem perder a leveza jamais). Mesmo que esta tenha sido uma opção da direção, para contrapor com a leveza do Ulisses, esta perde forças frente à trilha sonora que já está fazendo o desejado contraponto, com uma Nina Simone não deixando pedra sobre pedra; e, pelo próprio texto, que já é poético e pesado, não havendo necessidade de sublinhar o já sublinhado.
Creio que há um momento de decisão, The Turning Point, da personagem feminina, que é quando ela canta Tira as Mãos de Mim, contundente canção de Chico Buarque e Ruy Guerra, composta para a peça Calabar – o Elogio da Traição. Esta canção é uma confissão de adultério, portanto é desafiadora. Quem tem a coragem de dizer aquilo e está decidido a dizer e diz, já penou o que tinha de penar, e depois disso, é só juntar os trapos e cair fora. A escolha foi feita. Alia jacta est. Entretanto, tudo isto está lá, em cena, só que, me parece, está faltando uma definição maior, por parte da direção, quanto às intenções da personagem, devido à estética escolhida. E, com isso, não quero dizer que Cláudia Miranda não é boa atriz. Muito pelo contrário, ela é e está ótima. Resta no ar a dúvida - sobre a maneira de condução da personagem pelo diretor -, de que se é esta realmente, a forma que o espetáculo demanda.
Contudo, embora estas observações ranhetas, Ninguém Abraça um Pedaço navega tranqüilo, conseguindo chegar ao porto, incólume, com poucas seqüelas adquiridas pela travessia em mares turbulentos. O espetáculo é envolvente, contundente, suave, meigo e, sobretudo, pleno de fé, que emana, extravasa pelos poros de seu capitão e seus dois timoneiros, guerreiros e carismáticos.

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